BINÓCULO CINTRAX ASTROVIEW 10 X 60
Meus primeiros contatos com a observação do céu fez-se com um bino russo, antigo, marca Tento, 7X35, que até hoje é meu companheiro de observações. Depois de passar ao telescópio, comprei um Celestron 12X60, para utilizar em viagens, o qual aproveitei muito pouco, pois, malfadadamente, a maioria das minhas viagens foi a lugares com mau tempo. Vendi o bino e passei a usar apenas o 7X35. Acabei sentindo falta da maior amplificação e abertura e resolvi adquirir este Astroview 10 X 60. Como existem sempre muitas dúvidas quanto a marcas e modelos no Fórum, resolvi após testar o bino divulgar este review, apesar da minha pouca experiência com binóculos. Conforme um companheiro aqui do CF já relatou, este bino é fabricado pela Ufind, indústria chinesa de binóculos, e vendido no Brasil pela Cintrax Opto (Astroshop). A Ufind produz vários diferentes modelos de binóculos que são comercializados pelo mundo por diversas marcas, inclusive a conhecida Oberwerk, nos EUA. DADOS TÉCNICOS
Fabricante: Ufind Chinese Binoculars Manufacturer and Exporter Amplificação: 10X Diâmetro das objetivas: 60mm Campo Real de Visão: 5,2º (92 mts em 1000 mts) Pupila de Saída: 6mm Alivio de Olho: 20mm Distância Mínima de Foco: 7m Prismas: Porro Bak 4 Comprimento: 23mm Coating: Broadband fully multi-coated Peso: 1,2 Kg
ACESSÓRIOS
1 bolsa de nylon, com forro de espuma 1 alça de nylon 1 adaptador para tripé 2 tampas para proteção das objetivas Tampa única para proteção das oculares 1 flanela para limpeza
CORPO E MECÂNICA
O binóculo tem corpo inteiramente metálico, aparentando uma constituição sólida. Não possui indicação de marca, tendo gravado apenas o modelo “Astroview” e o campo em metros (92 em 1000). É revestido por uma camada de borracha por quase toda sua superfície, com exceção das faces superiores, laterais às oculares. Com base neste revestimento, os fornecedores divulgam-no como “resistente à água”. Contudo, não é lacrado, nem preenchido com nitrogênio, o que, a meu ver, torna esta resistência um tanto relativa. Porém, além da umidade, o revestimento protege contra arranhões e eventuais pancadas (leves, é claro). As tampas de borracha têm diâmetro um tanto largo, em relação ao das objetivas, o que as deixam frouxas e caindo com muita facilidade. Não é possível pendurá-lo no pescoço com as oculares tampadas, por exemplo, já que elas não se sustentam no tubo do bino. A alça para pendurar no pescoço é de nylon fino e, pelo peso do bino, desconfortável para uso por muito tempo. Em contrapartida, o suporte para tripé é todo em metal, sólido, tem a base revestida com material antiderrapante e a rosca de fixação possui uma “empunhadeira” cilíndrica, emborrachada, garantindo firmeza no aperto da rosca. O focalizador gira com relativa suavidade, porém firme e sem folgas. É menos suave que o meu Tento e bem mais que o antigo Skymaster. O ajuste da distância interpupilar tem a mesma característica de “suavidade firme”. Os protetores de olhos das oculares (eyecups) são de borracha macia, e dobráveis, facilitando as observações com óculos.
ÓTICA
As lentes oculares possuem um diâmetro de 23mm, sem contar a película de borracha do eyecup, portanto, bem acima dos 13mm prescritos na literatura, abaixo dos quais a posição dos olhos em relação a elas pode se tornar crítica. A pupila de saída é brilhante e perfeitamente circular, denotando a qualidade Bak 4 dos prismas. As lentes, tanto das objetivas quanto oculares, apresentam um reflexo azul intenso, revelando o revestimento multi-coated. Não há manchas indicativas de falhas no coated.
TESTES E OBSERVAÇÃO DIURNA
Já havia observado por outros binóculos, anteriormente, embora sem finalidade astronômica. Já tive uns genéricos e dois pequenos binos da marca Tasco. Nunca havia identificado imagens tão luminosas quanto às do meu Tento, inclusive comentei este detalhe com um amigo, proprietário de um bino idêntico, que compartilhava a mesma opinião. O Celestron, embora com objetivas bem maiores e mesma pupila de saída, apresentava imagens mais escurecidas. Neste quesito o Astroview não me decepcionou, suas imagens são tão luminosas quanto as do bino russo. E pude comprovar isto tanto em observações diurnas, quanto noturnas. Apliquei uma série de testes diurnos, indicados pela literatura, em relação aos quais passo a apresentar os resultados (em outra oportunidade, postarei os testes em outro tópico do Fórum).
a) Paralelismo dos eixos óticos – não notei duplicação de imagem, o que demonstra correção do paralelismo; b) Colimação - A imagem não revelou diferenças de posição, nem “saltitou” na visualização alternada, indicando estar o bino colimado; c) Qualidade ótica – as imagens permanecem nítidas até bem próximo à borda do campo visual, em mais de 2/3 deste, diria que em 75%, revelando boa qualidade ótica – a título de ilustração, óticas excelentes mantém a nitidez em 100% do campo; d) Cromatismo – o teste da aresta não revelou nenhum reflexo de irisação de cores, indicando bom ajuste cromático; e) Distorção – o teste da aresta também não revelou curvatura na maior parte do campo visual, apenas muito próximo à borda percebia-se leve curvatura, indicativo de um bom ajuste ótico.
As imagens são nítidas, claras e detalhadas. O único item em relação às observações diurnas a causar desconforto, no meu caso, é o peso do bino que prejudica a visualização à mão livre. É preciso, no mínimo, apoiar os braços para mantê-lo na altura dos olhos sem esforço excessivo e sem tremedeiras. O ideal é mesmo um tripé ou monopé. Em se tratando de uma amplificação de 10X, penso que esta é uma desvantagem característica de um bino com este aumento e objetivas de 60mm, que contribuem bem para aumentar o peso do equipamento. A idéia que fazemos, normalmente, é a de que um 10 X á para ser utilizado à mão livre. E neste 60 mm isto é, pelo menos, muito difícil.
TESTES E OBSERVAÇÃO NOTURNA
Embora com pouca experiência, sou da opinião de que a prova de fogo de um bino são as observações noturnas, principalmente as astronômicas. São elas que revelam o real potencial e as limitações de um instrumento. Fiz duas observações com o Astroview. Uma rápida olhada, em Aracajú, com tempo nublado, e a segunda sob o céu metropolitano do Rio de Janeiro, numa Lua cheia, com 100% do disco iluminado, e bem perto do fulgurante Júpiter. Para completar, próximo ao litoral havia uma névoa um tanto espessa, espalhando ainda mais a luminosidade do céu. O seeing era inferior a mag. 2,8. O céu com brilho intenso, só valia mesmo para testes, ou, no máximo observação lunar. Se manter o bino seguro nas mãos para observações terrestres é desconfortável, como afirmei, para as astronômicas, no meu caso, isto é impossível. Por isso, a observação foi realizada com o apoio de um monopé. O primeiro objeto focalizado foi a Lua. Enquadrada por inteiro no campo do bino, aparece nítida, com imagens contrastadas e riqueza de detalhes. Não percebi imagens duplas ou fantasmas. Não identifiquei aberração cromática em toda a sua borda, bem demarcada, sem halos de luz em seu entorno. Porém, a imagem não aparece inteiramente livre de reflexões, pois percebi dois pequenos pontos, translúcidos, como duas pequenas “bolhas”, cada uma, um pouco acima e um pouco abaixo da imagem lunar. Mudando o ângulo de visão elas mudam de lugar, mas nunca se interpõem entre os olhos e a imagem. No meu caso particular, a presença destes pontos não chega a causar grande incômodo ou atrapalhar a observação. Depois, passei a Júpiter, logo abaixo da Lua. O brilho do planeta causa pequeno coma na imagem de seu disco e, movendo-se o olhar pelas oculares, aparecem fachos de reflexo da sua luz. Quanto a isto, devo dizer que todos os (poucos, é verdade) binos em que observei Júpiter apresentaram alguma deformação da imagem. Se, com o Astroview, em todas as situações anteriores não percebi cromatismo, no caso deste planeta, em certos ângulos de visão aparecia um pequeno chumaço esverdeado, na posição das 2 horas. Embora as condições de céu fossem muito ruins, como já descrito, vi claramente as Galileanas. Passei ao teste da visão estelar. As estrelas, principalmente as de menor magnitude, não aparecem como objetos pontuais propriamente, porém apresentam pequenas projeções luminosas simétricas por toda a volta, o que indicaria o limite dos níveis de normalidade da imagem, segundo Guilherme de Almeida. Ocorre que, além disso, as estrelas mais brilhantes, como Antares, formam um leve coma, que se projeta como um diminuto risco, na posição das 4 horas. Na maior parte do campo visual não se manifestam outras deformações, como alongamento ou achatamento da imagem, que permanece constante pelos 75% do campo, aumentando o coma de modo cada vez mais acentuado nos 25% restantes. Apesar do intenso brilho celeste, tentei observar outros objetos. Vi Omega Centauri, numa posição muito desfavorável, já próximo ao horizonte, com a imagem tão nítida quanto o céu permitia. M6 e M7 foram vistos com muita facilidade, assim como NGC 6231, em Escorpião. Em Sagitário observei M23 e arrisquei o aglomerado globular M 22, sem grandes esperanças, já que este se encontrava bem próximo da Lua e de Júpiter logo ali atrás, em Capricórnio. Entretanto, para minha satisfação, lá estava ele, bem visível, ao lado da “tampa do bule”. A noite avançava, os luminares, Lua e Júpiter, alcançavam o Zênite, a névoa aumentava e o trabalho aguardava-me na manhã seguinte. Nestas circunstâncias dei por encerrada a cessão de testes.
CONCLUSÃO
As observações e testes descritos revelaram que o Cintrax Astroview 10 X 60 é um equipamento com boas características óticas e mecânicas. Neste último caso, deve-se levar em conta que a combinação 10X com 60mm de objetivas apresenta desvantagens quanto à sustentação manual do instrumento. Quanto à qualidade, pelas descrições e análises disponíveis em relação a binóculos em geral, percebe-se que ele não é propriamente um “top de linha”, porém, entre as vantagens e limitações que oferece, apresenta-se como um bino de qualidade dentro da faixa de equipamentos na qual concorre. É um binóculo relativamente barato, no patamar dos U$ 120,00 fora do Brasil e o dobro disso, ou pouco mais, quando adquirido aqui, portanto, suas vantagens devem ser pensadas neste limite de preço. Suas imagens são luminosas, nítidas e, praticamente, sem cromatismo. O aproveitamento do campo visual é bem razoável, com imagens perfeitamente nítidas, acima dos 2/3 prescritos na literatura - com exceção das imagens estelares, como referido anteriormente. Também, como já dito, suas limitações não prejudicam, ou mesmo tornam incômodas as observações. Pelo contrário, no meu caso, o pouco que vi me satisfez bastante. Na minha opinião, trata-se de uma excelente relação custo-benefício para aqueles que, como eu, não se dispõem, ou não podem, desembolsar cinco, dez ou mais vezes este valor, para obter imagens perfeitas, ou mais próxima disso. O Astroview e eu estamos devendo um para o outro noites mais propícias a observação, com céus mais limpos e escuros. Certamente, faremos muitas delas, pois esta parceria está recém começando. Termino lembrando a quem de direito que o bino merecia umas tampinhas melhores!
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